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A mostrar mensagens de dezembro, 2024

Deleites

 Nos doces campos do sentir profundo, Deslizam leves os prazeres da alma, Sorrisos brandos, paz que nos acalma, Tesouros raros neste vasto mundo. No vinho suave ou no amor fecundo, Nas cores do poente em luz que se espalma, Nos gestos simples, onde o bem se empalma, São deleites que tornam o viver fecundo. É o toque sutil de uma melodia, A dança da vida em breve emoção, Ou o calor de um afago que irradia. Na essência do tempo, em plena estação, Os deleites são flores que a alma cria, Semeando no peito eterna paixão.

Brasas

 No silêncio que o fogo deixa ao partir, Repousam as brasas em leve fulgor, Sussurrando histórias de calor e dor, Do que foi chama e não pôde existir. São corações que insistem em resistir, Guardando na cinza o antigo ardor, Centelhas perdidas, mas com vigor, Prontas a renascer, a vida expandir. Nas brasas, o tempo se torna prisão, Um lapso entre o ontem e o amanhã, Um eco do fogo em sua combustão. E mesmo ao toque que a alma profana, Elas guardam, em brando rubro clarão, O poder de acender a luz humana.

Autópsia da Vida

  o leito frio, a vida agora exposta, Revela em suas marcas cicatrizes, Histórias de batalhas e matizes, Que o tempo gravou em sua resposta. O bisturi avança, a mão disposta, Explora sonhos mortos, seus deslizes, Os risos esquecidos, as raízes Que a dor plantou na alma, feita aposta. Há fibras de paixão, de luto e chama, Vestígios de esperanças despedaças, E um coração que, em luta, ainda clama. Na autópsia da vida, o fim não passa: O que se vive, eterno se proclama, No pulsar do que o amor deixou em traças.

Autópsia do Tempo

 No frio silêncio das horas passadas, Repousa o tempo, inerte e desnudado, Sua pele são dias já desgastados, Suas veias, memórias desfiadas. O bisturi do olhar, em linhas caladas, Explora o corpo do ontem enterrado, E descobre, no rastro do tempo alado, Os ecos de escolhas mal acabadas. Cada segundo, um órgão que se perde, Cada minuto, um suspiro esquecido, Na ciranda da vida, tudo cede. Mas, ao abrir o tempo em seu gemido, Vê-se que a eternidade nunca é sede, E o agora é o instante mais vivido.

Jovens Revoltos

No brilho ardente dos olhos que contestam, Há mundos por nascer, sonhos guardados, Rompendo as grades dos caminhos traçados, E as sombras do poder que os detestam. Não se curvam ao peso das respostas, Rejeitam regras que não mais são suas, Erguem bandeiras sob noites nuas, E dão voz às verdades que se afastam. São fogo que arde em meio à calmaria, Tempestade que rompe a tradição, E traz no peito a força da utopia. Mas que a revolta, em justa direção, Não perca a luz da fé e da harmonia, Para que flores brotem da insurreição.

Esbulho do Estado

  Do Estado, o bem, que é de todos nós, Roubado na calada, em mãos ocultas, Se esvai na corrupção de almas brutas, E cala-se o povo, sem força ou voz. As riquezas da pátria, em tristes foz, Desaguam em bolsos de tramas astutas, Enquanto a justiça, cega, reluta, Permite que o poder seja algoz. Esbulham do Estado a honra e o sentido, Negando ao fraco o pão, o chão, a escola, E à miséria condenam o esquecido. Mas o tempo virá, em clara aurora, Que os frutos da verdade darão abrigo, E o grito da nação romperá a hora.

Prostitutas da Lei

Nos salões dourados da falsa verdade, Vestem togas que brilham com ambição, Negociam justiça, vendem razão, E traem os preceitos da equidade. Por moedas de prata, enterram a idade Da honra que outrora guiava a nação. Transformam em lucro o sofrer do irmão, Fazendo do direito uma vil vaidade. Prostituem a lei, a moral desfeita, Por favores ocultos, poder profano, Enquanto a virtude sucumbe, desfeita. Mas a balança, um dia, pesa o engano, E a história revela, nua e suspeita, O preço da máscara e do desumano.

Mercenários da Paz

 Por terras de Moçambique, a dor caminha, Nos campos feridos, outrora esperança, Mas surgem homens de alma que avança, Com armas de justiça e voz que alinha. Não lutam por ouro, glória ou espinha, Mas pelo canto suave da criança, Por um chão sem guerra, onde se dança, E a harmonia do povo se avizinha. Mercenários da paz, seus corações, São escudos contra a ira e a ruína, Plantam futuro em meio às ilusões. Que seus passos tragam à pátria divina O fim dos tormentos, as reparações, E o sonho que em silêncio se destina.

Reciprocidade

Em teu olhar há um mundo que reflete, Do amor sincero, a força que nos guia, Gestos trocados na pura sintonia, Um elo firme que a vida nos promete. Se dou-te afeto, tu me devolves mais, Se estendo a mão, a tua vem ao encontro, E em cada passo, juntos somos prontos A construir caminhos tão reais. Oh, doce troca que o destino embala, Na justa dança de dar e receber, És o segredo que à alma nunca cala. Reciprocidade, eterno florescer, No qual o bem que damos sempre fala, E volta a nós em forma de viver.

Vanilas

Há um sabor que exala a calmaria, Simples essência em tempos de tormenta, Doce no ser, mas forte na alma lenta, A baunilha guarda a luz da harmonia. Na vida somos como esta magia, Sem ornamento, na verdade isenta, Mas no comum, a pureza se inventa, E a simplicidade nos guia o dia. Oh, vanilas que adornam a jornada, Tão ignoradas, porém tão preciosas, Guardam o brilho em forma despojada. Nas coisas simples, as mais gloriosas, Está a paz, tão rara e desejada, Na alma pura, em escolhas primorosas.

Encruzilhada da Juventude

Na senda incerta entre o bem e o mal, Caminha o jovem com olhar perdido, Com escolhas em jogo, um tempo real, Onde o futuro é traço indefinido. O bem sussurra em voz de calmaria, Promete paz, um horizonte claro, Enquanto o mal, com força e ousadia, Seduz com brilho falso e desamparo. Oh, jovem, ouve o som do teu querer, Que a escolha é tua, guia o coração; Caminhos se farão ao teu viver. Na encruzilhada, usa a razão, Pois cada passo é marca do teu ser, E teu destino é fruto da acção.

O espectador

 Que mistérios nos cerca a cada instante, Nas tramas que o destino tece ao léu? Que força oculta, imensa, fascinante, Nos prende à terra e aponta para o céu? Por que a alegria é sombra tão fugaz, E a dor, por vezes, grita mais que a vida? Será o amor um porto ou chama audaz, Que arde e apaga em busca de saída? Por que os dias correm sem cessar, Como um rio que não volta ao seu começo? E o tempo, sábio, ensina sem falar? Oh, vida! Tua essência é meu tropeço, Mas, mesmo em meio à dúvida a pulsar, Em teu mistério inteiro eu permaneço.

Quirinha

 Quirinha, luz que dança em meu sertão, O riso leve, o encanto da campina, Nos campos verdes, és minha menina, Na simplicidade, o mais puro refrão. Teus passos leves marcam o chão, Como um poema escrito na neblina, Teu olhar brilha e o tempo destina A eternizar-te em meu coração. És a flor que brota entre as pedras brutas, A melodia doce ao vento que escuta, Um doce aroma de manhãs em flor. Quirinha, és vida, és canto e calor, És do sertão a mais singela musa, E em cada verso, és minha i nspiração pura.

A Fasquia do Amor

No alto erguida, a fasquia reluz, Medida justa do mais puro anseio, Sustém promessas que o coração conduz, E guarda o sonho em seu etéreo veio. Nem todo amor alcança essa medida, Pois pede entrega, alma a transbordar, Um salto audaz na essência tão vivida, E o medo à margem, sem nos limitar. Mas quem ousar ao topo se elevar, Sentirá nos braços o céu despido, E o amor, na plenitude, a se doar. Assim, na fasquia, o eterno é tecido, Num voo sublime, longe de pesar, Onde o amor é vasto, livre, infinito.

Melancolias da Alma

 a sombra tênue onde a alma se esconde, Mora o silêncio de um pranto calado, Um eco triste que o peito responde, Um sonho morto, no tempo apagado. No olhar perdido, um véu de agonia, Em cada suspiro, um peso maior. A dor se molda na fria alquimia, Transforma o instante em um dia sem cor. E na penumbra da noite sombria, A alma vagueia, buscando sentido, Num mar de ausências, sem luz, sem poesia. Mas há beleza no sofrer contido: Na melancolia há sempre um alforje, Que guarda a força que a dor nos forje.

Ressonâncias

No ar, vibrações de um som sutil, profundo, Ecoam pelo espaço em suave enlace, Unindo as notas do silêncio ao mundo, Um canto etéreo que jamais se desfaz. Nos corações, ressoam emoções, Memórias que se agitam no vazio, Unindo os tempos, cruzam dimensões, Como um reflexo em águas de um rio. Ecos que dançam na eterna harmonia, Fazem do instante um vasto infinito, Ligando almas numa melodia. Assim, no todo, o som ganha sentido, Ressonâncias que, em doce sinfonia, Tornam o efême sempre vivido.

Relés da Alma

Nos fios tênues do sentir profundo, Conexões que o tempo faz pulsar, Relés da alma começam a vibrar, Trazendo luz ao coração fecundo. No escuro instante em que o ser é mundo, E a chama interna parece apagar, Um toque leve volta a reacender, A força oculta que há no mais profundo. São mecanismos feitos de emoção, Que ligam sonhos ao real destino, E ajustam vidas com precisão. Assim, seguimos no traço divino, Relés da alma em eterna conexão, Regendo a luz do ser peregrino.

Esquadrões de Coração

Nos campos vastos do amor e da emoção, Marcham soldados de luz e esperança, São esquadrões que lutam na dança, De proteger um frágil coração. Com armas feitas de fé e paixão, Desarmam dores, devolvem lembrança, Erguem muralhas de amor, confiança, E enfrentam sombras que vêm da ilusão. São guardiões dos sonhos mais profundos, Que mantêm vivo o pulsar da alegria, Vencendo os medos que rondam os mundos. E nessa guerra de força e poesia, Esquadrões unem corações vagabundos, Tornando eterna a chama da harmonia.

Cúpido da Vida

No palco imenso, onde o tempo é ator, Surge o Cúpido, mestre em destinos, Com flechas feitas de sonhos divinos, Tecendo histórias de riso e de amor. Em cada encontro, acerta com fervor, Une dois mundos, distintos caminhos, E deixa marcas, sutis ou espinhos, Que nos transformam com seu esplendor. Nem sempre justo, mas sempre certeiro, Ele desenha o que a vida conduz, Com o arco forte de um mensageiro. E assim seguimos, na sua luz, Guiados por um toque verdadeiro, Cúpido eterno que o tempo reluz.

Homicídio de Sentimentos parte II

Em frias mãos, a lâmina da dor, Cortaste os laços que nos uniam, Mataste sonhos que em nós viviam, E sepultaste o brilho do amor. Os olhos teus, vazios de calor, Foram juízes das mágoas que surgiam, E entre palavras que me feriam, Assassinaram todo o meu fervor. Agora resta o eco de um adeus, Um corpo mudo de emoções perdidas, Na cova rasa dos sentidos meus. Que crime é este, de almas abatidas, Que mata, aos poucos, tudo o que é dos dois, E deixa o nada a caminhar depois?

Assalto ao Coração

Por entre a noite, um brilho em teu olhar, Um passo leve que invade o meu ser, Sem armas, fez meu peito se render, Roubaste o amor que vim a te guardar. Teu riso é trama, doce e singular, Um plano audaz que não pude deter. Com gestos firmes, vi-me a ceder, Meu mundo inteiro quiseste levar. Mas que ladrão tão belo e encantador, Que toma o coração sem hesitar, E deixa em troca um laço sedutor. Não quero da justiça me queixar, Pois foste tu, assalto de amor, Que fez-me livre ao me aprisionar.

Moçambique

Choram os rios, calam-se os cantores, A terra geme sob o peso cruel, A crise fere sonhos promissores, E cobre o povo em denso véu de fel. O pão escasso, o preço que consome, Rouba da mesa o riso e a esperança, Enquanto a sede dos que têm o nome Seca o futuro e rouba a confiança. Mas mesmo em meio a tanta desventura, O povo ergue o olhar, busca a razão, Na força, encontra a sua arma pura. Que a paz se plante em cada coração, E que do caos nasça a melhor cultura: De um Moçambique unido em oração.

Peripécias

   Na penumbra da nave, ela se esconde, Dos sonhos vãos e da paixão perdida, Seu coração, que outrora amor responde, Agora busca a paz que Deus lhe vida. Entre as folhas da Bíblia, sua mão, Afaga versos como um doce abrigo, Renuncia ao mundo e à ilusão, E faz do altar o seu fiel amigo. Mas a vida, astuta em sua peripécia, Traz ecos do amor que deixou pra trás, Sussurra em preces uma nova espécie. De sentimento que, sereno, jaz. Será que o mundo ainda lhe oferece Um renascer de tudo  o que desfaz?